3.5.17

ROCK IN RIO


É um evento capaz de reunir milhões de pessoas e ser reconhecido internacionalmente. Por seus palcos já passaram os maiores artistas da música mundial, incluindo bandas de rock históricas, com performances que ficaram gravadas nas memórias de milhões de pessoas. Assim pode ser definido o Rock in Rio, maior evento de música e entretenimento do mundo, que trouxe de volta a simbologia de zona franca de liberdade, música e amor. 

A história 
Tudo começou com o empresário e publicitário Roberto Medina, que em janeiro de 1980 trouxe Frank Sinatra para cantar no estádio do Maracanã, diante de um público de 175 mil pessoas. Depois desse sucesso, ele acreditou que poderia organizar algo maior. A ideia grandiosa era organizar um megafestival de música chamado Rock in Rio, que aproveitasse o momento de euforia do povo brasileiro, principalmente da juventude, depois de um longo período de ditadura militar. O parâmetro para organizar o Rock in Rio seria Woodstock, o evento musical mais conhecido do mundo, realizado entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, Nova York, com um público total de 500 mil pessoas. A ideia, apesar de visionária, era complicada de ser realizada. Pelos cálculos apenas 30% dos gastos seria coberto pela bilheteria, o que exigiria patrocinadores fortes. Depois de conseguir patrocinadores, incluindo a cervejaria Brahma, que tinha acabado de lançar a cerveja Malt 90 e seria uma ótima plataforma de divulgação, o próximo passo seria, talvez, o mais difícil: viajar para os Estados Unidos para não só contratar, mas convencer, literalmente, as bandas a se apresentarem no Brasil. Com a ajuda de Lee Solters, então empresário de Frank Sinatra, Medina começou a vencer a desconfiança dos artistas estrangeiros. Depois de muitas reuniões nos Estados Unidos, foram confirmadas as participações de Ozzy Osbourne, Queen, AC/DC, Iron Maiden, Rod Stewart, Scorpions, entre outros. Após o acerto com as atrações internacionais, Medina passou a fazer contato com as brasileiras. No final de agosto de 1984, quatro meses antes do início do festival, estavam confirmados Barão Vermelho, Moraes Moreira, Elba Ramalho, Blitz, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Eduardo Dussek, Erasmo Carlos e Gilberto Gil. No dia 19 de dezembro, depois de muita insistência, Rita Lee e Roberto de Carvalho assinaram seu contrato. O maior cachê entre os brasileiros foi o de Ney Matogrosso, que abriria o Rock in Rio.


Um dos objetivos de Roberto era promover uma experiência de marca. Para isso, foi construído um complexo de entretenimento e comércio batizado de “Cidade do Rock”, ocupando uma área de 250.000 m² na zona oeste do Rio de Janeiro. O centro comercial contava com o maior palco do mundo já construído, com 5.000 m² de área, dois shoppings com mais de 50 lojas, dois centros de atendimento médico e dois restaurantes fast-food, um pertencente ao Bob’s e outro ao McDonald’s, que bateu o recorde de vendas em um dia com 58 mil hambúrgueres, entrando para o Guinness Book. Finalmente entre 11 e 20 de janeiro de 1985, em um terreno alagadiço em Jacarepaguá (o equivalente a 12 estádios do Maracanã), aproximadamente 1.4 milhões de pessoas assistiram aquele que seria o maior festival de rock do país até hoje. Durante esses dez dias, 16 artistas internacionais e 15 atrações nacionais se apresentaram. Pela primeira vez no mundo a plateia de um grande show foi iluminada, com o público fazendo parte do espetáculo. O Rock in Rio foi considerado um divisor de águas na história da música brasileira, pois colocou o país na rota dos grandes shows internacionais e ratificou a força do rock nacional.


Apesar da perspectiva otimista em relação ao potencial da empreitada, o Rock in Rio também enfrentou dificuldades e problemas. A segunda edição, no ano de 1991, não pode ser realizada na Cidade do Rock, que foi demolida pela prefeitura do Rio de Janeiro após um impasse entre o então prefeito da cidade Leonel Brizola e a Artplan, agência de Medina, responsável pela produção do festival. Realizado no estádio do Maracanã, o evento reuniu apenas 700 mil pessoas em 9 dias de evento, apesar de grandes atrações internacionais como Guns N’ Roses, Faith No More, A-Ha, George Michael e Sepultura. Até então inédita no Brasil, a banda Guns N’ Roses, que foi a grande atração do festival, tocou em dois dias e adiantou algumas das músicas que estariam presentes em seu próximo álbum. Depois de um hiato de uma década, em 2001, foi realizada a terceira edição, a pedido dos fãs. A decisão acertada, após um grande intervalo, demonstrou a força do festival como marca, que retornou à sua casa, a Cidade do Rock. A novidade foram tendas alternativas (com música eletrônica e brasileira) onde se realizaram shows paralelos aos do palco principal. Esta edição também ficou marcada pelo slogan “Por um Mundo Melhor”, que remetia à crescente preocupação da organização do Rock in Rio em relacionar a sua marca à responsabilidade social.


O enorme sucesso no Brasil, fez com que o Rock in Rio se tornasse o primeiro festival a adotar o sistema de franquia em megaeventos musicais. Isto porque, em 2004, o festival atravessou o oceano e ganhou a primeira edição internacional na cidade de Lisboa, em Portugal. Participaram mais de 70 artistas ao longo dos 5 dias de festival, e o evento foi um sucesso, recebendo mais de 385 mil espectadores. Um line-up forte e variado, com Amy Winehouse, Rod Stewart, Bon Jovi e Skank, garantiu que o festival ganhasse uma nova casa fixa. Não à toa: ninguém menos que Sir Paul McCartney fez a estreia. A segunda edição em Portugal seria realizada dois anos mais tarde. O sucesso da internacionalização do festival pode ser comprovado em 2008, quando foi realizado pela primeira vez em dois locais diferentes, Lisboa e Madri, provando assim a enorme força da marca Rock in Rio. Em 2011, aconteceu a quarta edição do festival no Brasil. A prefeitura do Rio de Janeiro construiu um novo local permanente que permitia uma maior periodicidade do evento. No mês de maio de 2015 ocorreu a primeira edição do Rock in Rio nos Estados Unidos, com quatro dias de festival e aproximadamente 172 mil pessoas na plateia na cidade de Las Vegas. Também neste ano aconteceu a sexta edição do Rock in Rio no Brasil, em comemoração ao aniversário de 30 anos do festival e teve como uma das grandes atrações a volta da banda Queen.


A próxima edição do festival no Brasil irá acontecer no mês de setembro de 2017, com uma nova estrutura montada na Cidade do Rock, que dessa vez será no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Com uma estrutura maior, o festival terá atrações como Guns N’ Roses, The Who, Lady Gaga, Maroon 5, Fergie, Aerosmith, Alice Cooper, Bon Jovi, Red Hot Chili Peppers, Pet Shop Boys, Ivete Sangalo, entre outros. Serão sete dias de festival e um público de 700 mil pessoas, com ingressos já esgotados.


Um negócio gigantesco 
Mais de três décadas passadas, o Rock in Rio se materializou em um enorme negócio e marca de sucesso, uma máquina capaz de gerar cifras gigantescas e atrair importantes patrocinadores. A enorme popularidade que o Rock in Rio conquistou ao longo dos anos fez com que os organizadores do festival vislumbrassem oportunidades para explorar a marca. Com isso, uma infinidade de produtos com marca Rock in Rio, como bonés, bottons, chaveiros, casacos, camisetas, bolsas e até biscoitos, começaram a ser comercializados. Um exemplo do poder da marca Rock in Rio, pode ser visto em 2015, quando mais de 640 produtos foram licenciados. Os itens variavam desde produtos alimentícios a peças de vestuário, artigos de higiene, saúde e beleza, eletrônicos, instrumentos musicais, viagens, cursos e até automóveis (como por exemplo, edições limitadas de modelos da Volkswagen como Fox, Gol e Saveiro, com detalhes visuais que remetem ao festival).


Com mais de trinta anos de história, o Rock in Rio é um lugar onde muitas histórias aconteceram e o valor emocional do público com o produto é algo inestimável. Essa relação acontece com a Disney. Por exemplo, ao completar 30 anos o evento decidiu fomentar o relacionamento com público resgatando histórias e a memorabilia dos shows. Além das exposições, filmes e homenagens, o festival decidiu promover casamentos. A ideia surgiu a partir dos fãs. Outra questão que envolve a valorização do público foi a abertura para outros estilos musicais, além do rock, oferecendo assim um cardápio diversificado de atrações e atividades. Além de serviços exclusivos, como por exemplo, Rock in Rio Club, que oferece benefícios aos associados como adquirir antecipadamente os ingressos para os shows mais desejados e concorridos. O Rock in Rio ainda se destaca por ter diminuído a relevância da bilheteria nas finanças da empresa por meio de patrocínios e de parcerias estratégicas. E também por investir em constantes melhorias e novidades em sua estrutura para criar magia no contato com o público que busca entretenimento.


E todas essas ações de sucesso resultaram no projeto Rock in Rio Academy, uma escola de negócios dentro da Cidade do Rock, que promove uma maratona de palestras para extrair todas as lições de gestão do Rock in Rio, criando assim uma oportunidade de vivenciar a experiência do case brasileiro de negócios que virou referência global. Mas nem tudo deu certo nessa área. Por exemplo, em 1997 eles resolveram explorar a marca no setor de entretenimento com a inauguração na cidade do Rio de Janeiro, de um restaurante temático com o nome Rock in Rio Café. Localizado no bairro carioca da Barra da Tijuca, o local seguia a receita da rede Hard Rock Café, contando com fotos, instrumentos musicais e outros objetos das três edições do evento, além de uma loja de lembranças. Posteriormente, foi inaugurada uma filial do restaurante em Salvador, na Bahia. Porém, ambas as casas não existem mais.


As curiosidades 
● No primeiro Rock in Rio, Freddie Mercury, do Queen, ficou tão impressionado com o entusiasmo do público que, durante a canção Love of my Life, decidiu reger a plateia em uma cena que se tornou mítica na história do rock. 
● Em 1985, a banda australiana AC/DC foi inflexível em pelo menos uma exigência: só tocaria no Brasil se pudesse trazer um gigantesco sino de 1.5 toneladas, usado na música Hell’s Bells. A produção do Rock in Rio aceitou o desafio. Mas o palco não suportava o peso do sino. No fim, o AC/DC subiu no palco com uma réplica de gesso, uma improvisação feita pela produção do festival. 
● O Iron Maiden fez seu primeiro show na América Latina no Rock in Rio, em 1985. A banda subiu ao palco às 23h58 (uma referência à canção Two Minutes to Midnight) e fez um dos shows mais históricos da banda e do festival, com a presença do Eddie, a mascote de estimação do grupo. 
● O terreno da Cidade do Rock, local da primeira edição, virou um enorme lamaçal já nos primeiros dias. O impressionante é que pedaços dessa mesma lama podem ser adquiridos na loja oficial do festival. 
● Show nacional mais elogiado da primeira edição (1985), o grupo Barão Vermelho, ainda liderado por Cazuza, se apresentou em 15 de janeiro de 1985, mesmo dia em que Tancredo Neves era eleito primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar. 
● Uma imagem que se tornou icônica no primeiro Rock in Rio foi a do guitarrista Matthias Jabs, do Scorpions, tocando com uma guitarra em formato de América do Sul. 
● Em 1991, na segunda edição do festival, o cantor pop Prince surpreendeu com uma exigência bizarra. Ele pediu à organização 700 toalhas brancas no camarim. E no fim, quantas ele usou? Apenas 50. 
● Na noite pop do Rock in Rio de 2001, a então estrela teen Britney Spears causou polêmica por usar playback na apresentação, sendo criticada por fãs e imprensa. 
● Na terceira edição do evento, em 2001, quem causou polêmica foi o baixista Nick Oliveri, da então desconhecida banda Queens of the Stone Age. Ele subiu ao palco completamente nu, com o baixo cobrindo as partes íntimas. Após o show, ele foi encaminhado a uma delegacia, onde teve que prestar esclarecimentos. Segundo Nick, ele se inspirou no carnaval carioca. 
● Na edição 2013, o veterano Bruce Springsteen levou a sério o grito do público de “Toca Raul” e iniciou o show com o clássico “Sociedade Alternativa”, para delírio dos fãs.


Dados corporativos 
● Origem: Brasil 
● Lançamento: 11 de janeiro de 1985 
● Criador: Roberto Medina 
● Sede mundial: Rio de Janeiro, Brasil 
● Proprietário da marca: Rock World S.A. 
● Capital aberto: Não 
● CEO: Luis Justo 
● Faturamento: Não divulgado 
● Lucro: Não divulgado 
● Festivais realizados: 17 
● Presença global: 4 países 
● Presença no Brasil: Sim 
● Funcionários: 200 
● Segmento: Entretenimento ao vivo 
● Principais produtos: Festivais de música e licenciamento de produtos 
● Concorrentes diretos: Lollapalooza, Austin City Limits, Coachella Fest e Glastonbury Festival 
● Ícones: O hino de abertura 
● Slogan: Por um Mundo Melhor. 
● Website: www.rockinrio.com 

A marca no mundo 
Em mais de trinta anos já foram realizados 17 festivais no Brasil (seis), Portugal (sete), Espanha (três) e Estados Unidos (uma) com uma plateia total de 8.5 milhões de espectadores. Por seus palcos já passaram mais de 1.580 artistas em 101 dias de pura música. Ao longo dos anos o evento foi transmitido para mais de 1 bilhão de telespectadores em todo o mundo, pela TV e internet. 

Você sabia? 
O publicitário Cid Castro desenhou o logotipo do Rock in Rio. Já sua canção-tema, criada como um jingle publicitário (“Se a vida começasse agora/e o mundo fosse nosso outra vez/e a gente não parasse mais de cantar, de sonhar...”) e gravada originalmente pelo grupo Roupa Nova, globalizou-se, virou chiclete nas bocas de brasileiros, portugueses e espanhóis e até americanos. 


As fontes: as informações foram retiradas e compiladas do site oficial da empresa (em várias línguas), revistas (Fortune, Forbes, Newsweek, BusinessWeek, Isto é Dinheiro e Exame), jornais (Estadão, Folha e Valor Econômico), sites especializados em Marketing e Branding (BrandChannel e Interbrand) e Wikipedia (informações devidamente checadas). 

Última atualização em 3/5/2017

Um comentário:

Maria disse...

História bem interessante, mostra a visão do empreendedor que criou a marca.